Desfibrilada
Você me perguntou quando eu morri. Janeiro. O mês. O dia eu quis esquecer. Naquele banco de calçada você não teve medo da chuva. Eu lembro da cor dos seus olhos que me encaravam tão afiados. Eu me senti contra a parede. Morri em janeiro. Morri na época em que o ciclo se inicia, em que tudo começa. Eu lembro da sua mão quente, mesmo molhada. Você não teve medo de mim. Você não teve medo de perguntar aonde as cicatrizes do meu corpo te levariam. Talvez eu tenha morrido no dia primeiro. Primeiro de muitos. Castanho escuro. A cor deles. Dos seus olhos. Eu enxerguei a sua coragem no momento em que você segurou a minha mão. Eu quis ir embora porque estava morta há tanto tempo, menino, eu estava vagando há tanto tempo... não admitia mudanças drásticas no meu mundo. E você era a corrente elétrica que faria o meu coração pulsar de novo. Eu senti isso. Eu senti isso quando você invadiu meu sonho e leu a minha alma. Você foi o primeiro a me ler depois que eu morri. Depois de janeiro. E você não t...