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Mostrando postagens de junho, 2015
Naquela tarde, enquanto você encarava o chão e não se importava nem um pouco com o vento que fazia do seu cabelo uma pequena amostra de nós dois (confusão), eu me perguntei quem era você. Eu quis saber as cores da sua tristeza porque você chorava em silêncio, você gritava em silêncio. Você me olhou com um sorriso no canto da boca como quem convida à morte ou ao mistério. Tanto faz. Tanto faz. Você deixou os olhos em mim e fez com que eu me desencontrasse porque eu quis mais do que tudo saber quem era você naquele momento. Eu queria saber as cores da sua ingenuidade. Eu queria saber as cores do seu meio sorriso tão desafiador e suicida. Eu queria organizar mecha por mecha do seu cabelo como se isso pudesse nos organizar porque eu cansei de ser confusão. Eu queria te transformar em poesia porque só Deus sabe por quantas eras a minha mão e o meu coração estiveram podres e inférteis. Eu queria te eternizar em linhas para que as futuras gerações tentassem te desvendar, te encontrar em algum...
entre um momento e outro, cujos pontos de referência não se referem a nada, nem a nós mesmos, eu perdi o rastro das suas correntes. num piscar de olhos, como dizem, sem aviso, sem previsão, você não estava mais lá. e eu não soube o que fazer com aquele amor todo. eu não soube o que fazer com aquela vontade que eu tinha de cuidar de você mais do que de mim. fui apodrecendo entre um disco e outro, entre uma xícara de café e outra, entre as páginas de Machado de Assis e Clarice Lispector. por que eu não consigo identificar entre o que você criou asas? é isto: o amor acaba, simplesmente? Evelyn Cardoso

Tapa Na Cara

Às 11h50 da manhã, como de costume, entrei no 484, ônibus que pego para ir ao colégio. Excepcionalmente, sentei no primeiro banco após a porta para a saída de pessoas e acesso para deficientes físicos. Lembro que havia um teste de física naquela tarde e por isso peguei meu caderno e passei a maior parte do percurso revisando as fórmulas. Até que, num dado momento, um homem claramente identificado como deficiente físico e mental entrou na condução, vendendo bala e amendoim. Ele mal conseguia se equilibrar e andava se apoiando nos bancos. Não dei muita atenção, eu estava ocupada com as fórmulas. Depois de recolher o dinheiro pela venda de seus doces, ele estava perto de mim. O ônibus arrancou e, sem condições de se manter em pé (o que seria uma tarefa difícil para qualquer um), o vendedor procurou se apoiar na parte superior do meu banco. Porém, infelizmente ou felizmente, ele o fez em meu rosto. Foi como um tapa, no entanto, mais forte. Pude sentir o peso de toda a negligência, de todo ...

A gente

 Então a gente morre, um para o outro, um no outro, um e o outro. A gente vai embora. A gente esquece ou finge esquecer, mas mesmo assim a gente fica e quer ficar até criar raízes e não poder ser arrancado mais. A gente sente por todas as vezes que se calou e deixou que o orgulho falasse por nós. A gente sente por se despedaçar, por ferir o outro e não conseguir pedir perdão. Há perdões entalados na minha garganta e eu cuspo se você cuspir os seus. Há nós dois em todo canto tentando voltar para o início e esquecer destas baboseiras que fazem da gente final. A gente se encontra numa rua qualquer, enquanto está tentando levar a vida sem o outro e pede com os olhos para voltar. E eu volto, mas na mente, na lembrança, torcendo para você seguir meu rastro. A gente vai, mas não quer ir. A gente finge morrer o tempo todo, mas a verdade é que a gente fica quietinho, descansando dentro do outro, lutando para não ir embora.  Evelyn Cardoso