tentando destroçar a própria alma, ele enterrava as garras de um matador, sedento e faminto por tudo, perturbado pelos demônios noturnos e pelos delírios diários na carne proibida, violando a pele, danificando o tecido subjacente que sangrava sob seus dedos e o fazia doer. ele doía pelos dias anteriores e pelos porres que terminaram numa simples ressaca e não numa revelação divina. ele doía pelas palavras afiadas que não o atingiram, porque precisava morrer, precisava deixar a pessoa velha e rabugenta cair na calçada e definhar. mas tinha medo das flores. tinha medo que depois de tantas metamorfoses e casulos podres que o sufocavam e o endureciam pudesse ser capaz de sair do corpo e sair da mente. ele cravava as unhas na pele e contaminava a si mesmo ao sentir aquele aroma de vida que invadia suas narinas. ele cravava as unhas na pele e coagulavam o passado e as renúncias que adoeciam sua alma pedinte por destroços, pedinte por novos começos, pedinte por qualquer coisa diferente de uma existência fechada e dura e muda e sem nada. queria gritar e cravar as unhas na pele para deixar bem claro que o corpo o pertencia e oficializar a posse, reinaugurar sua sanidade há tempos encolhida e suprimida por uma loucura cancerígena e maligna. sorria felino e selvagem ao cravar as unhas na pele e assinar sua carta de alforria. sorria felino e selvagem ao sentir, ao simplesmente sentir. saiu do corpo e da mente e perdeu o medo das flores. caiu na calçada com a alma destroçada, um sorriso felino e selvagem e flores entre os destroços. não se sentia preparado ou exorcizado totalmente. nasceu prematuro, mas finalmente nasceu.
Evelyn Cardoso
Evelyn Cardoso
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