Você não estava ao meu lado, somente em mim. Estava no local onde a guerra entre a loucura e a razão ocorre, onde o sonho e a realidade se chocam, onde o medo corrói aos poucos. Única vítima: eu. Perdida na ausência do seu corpo, fechei os olhos tentando te encontrar através do mapa que sua boca desenhou em mim. Só que não havia sonho. No quarto, um ser humano doente, delirando entre as horas e os segundos infinitos que faziam dos ponteiros do relógio facas afiadas que perfuravam sua carne. O sangue jorrava e eu me perguntava se a dor fazia parte do processo de cura e se as cicatrizes seriam a certeza de que ficaremos bem. Será que eu ficaria bem? Será que eu aguentaria carregar a imensidão do seu nome? Não chorei, nem mesmo me debati. De olhos fechados em meio à poça de sangue de nós dois, peguei-me te observando dormir. Eu disse baixinho que amava os seus olhos, enquanto as pálpebras os faziam mistério, tesouro escondido e meu. Beijei sua testa e pude sentir a sua febre, que me consumia cruelmente. Olhei para as suas mãos e vi nelas o meu corpo ainda preso, ainda seu. Deitei ao seu lado, mas não dormi. Rabisquei sonhos nas suas costas, enterrei-me na sua pele e lá fiquei, até você sumir.
Evelyn Cardoso
Evelyn Cardoso
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