A gente
Então a gente morre, um para o outro, um no outro, um e o outro. A gente vai embora. A gente esquece ou finge esquecer, mas mesmo assim a gente fica e quer ficar até criar raízes e não poder ser arrancado mais. A gente sente por todas as vezes que se calou e deixou que o orgulho falasse por nós. A gente sente por se despedaçar, por ferir o outro e não conseguir pedir perdão. Há perdões entalados na minha garganta e eu cuspo se você cuspir os seus. Há nós dois em todo canto tentando voltar para o início e esquecer destas baboseiras que fazem da gente final. A gente se encontra numa rua qualquer, enquanto está tentando levar a vida sem o outro e pede com os olhos para voltar. E eu volto, mas na mente, na lembrança, torcendo para você seguir meu rastro. A gente vai, mas não quer ir. A gente finge morrer o tempo todo, mas a verdade é que a gente fica quietinho, descansando dentro do outro, lutando para não ir embora.
Evelyn Cardoso
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