Naquela tarde, enquanto você encarava o chão e não se importava nem um pouco com o vento que fazia do seu cabelo uma pequena amostra de nós dois (confusão), eu me perguntei quem era você. Eu quis saber as cores da sua tristeza porque você chorava em silêncio, você gritava em silêncio. Você me olhou com um sorriso no canto da boca como quem convida à morte ou ao mistério. Tanto faz. Tanto faz. Você deixou os olhos em mim e fez com que eu me desencontrasse porque eu quis mais do que tudo saber quem era você naquele momento. Eu queria saber as cores da sua ingenuidade. Eu queria saber as cores do seu meio sorriso tão desafiador e suicida. Eu queria organizar mecha por mecha do seu cabelo como se isso pudesse nos organizar porque eu cansei de ser confusão. Eu queria te transformar em poesia porque só Deus sabe por quantas eras a minha mão e o meu coração estiveram podres e inférteis. Eu queria te eternizar em linhas para que as futuras gerações tentassem te desvendar, te encontrar em algum lugar dentro ou fora do mundo, dentro ou fora da mente. Eu te achei, mas nunca te tive. Você jamais me pertenceu por não pertencer a ninguém. Você jamais se jogou porque a queda machuca, mas eu me joguei. E não encontrei nada além de mim mesma no fundo, nada além de mim e do meu coração sem dono porque eu não sei o seu nome, as suas cores. Quem era você enquanto sorria e chorava e gritava por dentro? Quem era você, o arco-íris sem cores que não sucedia tempestade nenhuma? Quem era você, tão livre e tão preso a não sei o quê? Então você desviou o olhar, como se me respondesse que eu nunca iria saber.

Evelyn Cardoso

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

tic tac

é preciso começar a correr antes que a corrida acabe

lost