às vezes eu gostaria de ter nascido um cachorro, uma tartaruga ou um peixe que vive nas profundezas do mar, onde a luz não chega. não é que eu não goste de ser da espécie humana, é que em alguns momentos eu não sei como me gerenciar. eu sinto como se não fosse dona de mim mesma, apesar de ser. não sei o que fazer com as coisas que eu sinto. não sei se devo guardar ou externar minha raiva, assumir ou suprimir o meu amor, matar ou deixar viver a esperança. não sei nem mesmo se devo me deixar sentir. já notou como sentir é complicado? já notou como às vezes você acorda com vontade de mandar o mundo inteiro ficar em silêncio? e como em alguns dias viver é insuportável? in-su-por-tá-vel a ponto de fechar as janelas do quarto e enterrar a cabeça no travesseiro, torcendo para o sono ser um remédio ou um alívio para um vazio sem precedentes, para um incômodo inexplicável que a vida gera naquele momento. no entanto, dificilmente o sono chega porque aquela se torna a hora de pensar-pensar-pensar: fiz certo, fiz errado, posso mudar, não quero mudar, foi melhor assim, vai ser melhor assim, vou rir disso depois, eu deveria estar rindo agora... às vezes há choro, há descoberta, há constatação dolorosa ou prazerosa. e abrir as janelas é o mesmo que nascer mais uma vez, até fechá-las de novo. já morri e nasci tantas vezes... já me reinventei tanto! mas não é nada fácil. a vida é um processo difícil para quem sente e pensa, porque pensar não é sentir e sentir não é pensar. nós somos delimitadores de guerras, campos de um confronto que só tem fim quando um dos lados desiste. nós somos o resultado de um estrago constante que pode ser chamado de amadurecimento. e tudo isso dói.

Evelyn Cardoso

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