hoje foi um dia estranho. estranho como os em que eu acordo com um
aperto no peito que eu não sei explicar como ou por que surgiu. fiquei
pensativa e sem expressão. no entanto, algo queimava dentro de mim. eu estava
em chamas, a ponto de externar a minha fúria com gritos e pedidos de socorro
porque eu ainda não aprendi a suportar o peso de ser e sair ilesa. ao fim
desses dias, eu fico ferida e passo os seguintes cicatrizando. estou doendo
tanto pelos destroços, amor. estou doendo pelas minhas recusas, pela minha impotência,
pelas minhas dúvidas sobre o que parece tão óbvio para as outras pessoas. eu
olho para os rostos e me pergunto se eles também sentem que precisam arrancar a
própria pele para respirar, se eles também sentem que o mundo aperta, sufoca e
engole. eu estou pequena como jamais estive. eu estou rastejando à procura de
algo em que eu possa me agarrar porque a minha fé ainda é um conceito, ainda é
uma ideia em que eu trabalho todas as noites tentando chegar a uma conclusão
sobre o que eu vejo e sobre o que eu não vejo e sobre mim mesma, porque eu sou
um mistério. eu sou um ponto cego. eu me sinto sem direção e a fé é uma
bússola. eu preciso seguir. eu preciso confortar o meu coração que a cada
batida me faz desmoronar. nesses dias, eu não sei o que fazer. eu só escrevo.
eu escrevo e me esvazio porque tentar se explicar é uma forma de entender a si
mesmo. hoje foi uma nova dor. hoje foi uma nova ferida. estou cicatrizando.
Evelyn Cardoso
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