Retrocesso


Eu passei um bom tempo sem recorrer às palavras para externar o que eu sinto. Eu estava bem. Não completamente feliz, mas num estado em que eu não precisava buscar conforto escrevendo sobre o que me incomodava. E para mim estava bom assim. Estava bom sentir que eu tinha deixado aquela fase triste, em que eu chorava todos os dias e perguntava a Deus até quando iria doer, para trás. 

Agora eu estou aqui me perguntando em que momento eu deixei a paz que eu construí ir embora. Eu estou me perguntando em que momento eu me permiti sentir tristeza de novo, porque eu estou triste e meu coração dói tanto, como se toda dor que eu não senti nos últimos meses tivesse se acumulado. Parece que eu voltei no tempo e me debato por dentro querendo voltar à época em que eu não conseguia formular frases carregadas de sentimentos pesados porque eu simplesmente não os sentia mais e parecia tão hipócrita da minha parte.

Não mais.

Essa dor é totalmente minha. Eu sinto o retrocesso, o desmoronamento de tudo o que eu ergui e reguei,
vigiei,
dei vida,
dei luz.
Tudo isso pulsando nas minhas artérias e contaminando a minha carne e me fazendo chorar tanto, com um grito de socorro atravessado na garganta porque eu não quero essa dor, eu não quero essa agonia de não ver saída para o que eu sinto.

Se escrever significa carregar mais uma vez todo esse sentimento que me corrói,
eu renuncio a isso.

Talvez eu tenha alma de poeta,
mas o meu corpo só quer ser feliz.

Evelyn Cardoso

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