Primavera

Pela primeira vez eu me peguei sem saber o que sentir. Caminhava por entre as folhas secas do outono com o coração sereno, sem peso, como se a bagunça e o caos de antes nunca tivessem existido. Caminhei como se o amor que eu senti por ele não tivesse se instalado em mim. Foi uma sensação nova... uma constatação de que eu estou bem, de que eu finalmente estou bem. Como se eu não tivesse me sentido insuficiente. Como se a minha autoestima não tivesse sido tão abalada. Os carros passavam e o vento batia no meu rosto e a sensação foi de liberdade. Eu senti a liberdade de ter o coração limpo da culpa que eu sentia por não ter despertado nem um pingo de amor nele. Aquele cara apareceu quando eu menos esperava e foi como um furacão que devastou tudo. No início eu gostei, porque não pensei que poderia ser invadida assim de novo por alguém. Foi grandioso demais. Mais do que eu poderia aguentar e a única coisa que eu queria era que ele me olhasse de volta. Um olhar de admiração e quem sabe de desejo. Mas ele nunca me olhou. Nunca. Isso acabou comigo. Eu não coseguia aceitar que toda aquela conexão mental-espiritual que nós tínhamos, que o jeito como olhávamos fundo um no olho do outro, que aquela faísca entre a gente não significava nada pra ele. Eu não aceitava que a nossa sintonia era coisa da minha cabeça. Então eu chorei várias vezes. Eu praguejei várias vezes. Eu me permiti sofrer várias vezes na esperança de algum dia não chorar mais, de não praguejar mais e seguir, juntar os meus cacos e me refazer. Hoje eu me refiz. Não completamente, mas o suficiente pra me olhar no espelho e dizer que a culpa não é minha e nem dele. Eu me refiz pra acreditar que eu posso ser amada. Eu me refiz pra caminhar pelas folhas secas do outono sabendo um dia meu coração estará ocupado novamente

e será por um furacão que fará de mim caos, mas do tipo que deixa tudo onde deveria estar.

Floresci.

Evelyn Cardoso

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