meio-presa-meio-livre
o vento passa chacoalhando as plantas no quintal e eu observo pela janela do meu quarto.
você também sente que o mundo pode te engolir a qualquer momento? às vezes eu me sinto tão pequena e tão impotente, como se eu fosse a planta no quintal que se move de acordo com a direção do vento. arrancada se crescer muito ou se não florescer ou der frutos adequadamente. arrancada se não servir mais para enfeitar a paisagem (descartável)
aonde você iria se não estivesse preso por um bando de regras e convenções sociais? onde você fincaria raízes? você teria raízes?
eu queria me sentir como o vento em vez da planta (dono de si).
eu queria que o meu destino não fosse pré-determinado, simplesmente por eu ter nascido onde nasci.
você entende o que significa a liberdade? você entende que o livre arbítrio tem suas limitações? eu preciso trabalhar. eu preciso produzir. eu preciso contribuir para que a roda gire... e mesmo assim eu sou inútil. há pessoas que passam fome bem na minha frente e a quilômetros de mim. há pessoas que morrem de frio no inverno e que ficam encharcadas quando chove, tanto pela água da chuva quanto pelo abandono e pela aceitação de que alguns não devem ter nada para que outros tenham tudo.
se eu fosse livre, não aceitaria essas condições, sabe? mas é uma questão de sobrevivência. minha e dos meus.
eu me sinto culpada neste exato momento por me permitir pensar e observar o meu pequeno mundo lá fora em vez de produzir qualquer coisa que contribua para o meu futuro pré-determinado. eu tenho medo. tenho medo de envelhecer e morrer sem ter sentido nada extraordinário.
sem ter sentido o mais profundo e avassalador amor. tenho medo de me tornar apenas uma peça, cega e programada no jogo de gente que não tem noção da própria finitude.
eu tenho medo de ser engolida pelo sistema ou pela violência que o sistema alimenta quando admite a desigualdade. alguns saem de casa e não voltam mais. você agradece quando consegue voltar? você se sente abençoado? você se sente grato por ter o privilégio de não estar à margem e, assim como eu, ter alguma perspectiva que te faça ser aceito? isso nem é mérito nosso.
nascer não é mérito nosso!
eu tenho medo de naturalizar absurdos e terminar vazia, sem entender a linguagem dos poetas.
eu sempre quis ser mais do que eu era.
eu sempre quis transbordar amor embora tudo à minha volta pareça tão cruel e injusto.
eu sempre quis ser luz dentro da minha própria escuridão, expirar as minhas angústias e principalmente inspirar.
eu sempre quis sentir,
simplesmente sentir,
porque isso faz de mim gigante,
meio planta,
meio vento.
(ainda assim, estou tão perdida)
Evelyn Cardoso
você também sente que o mundo pode te engolir a qualquer momento? às vezes eu me sinto tão pequena e tão impotente, como se eu fosse a planta no quintal que se move de acordo com a direção do vento. arrancada se crescer muito ou se não florescer ou der frutos adequadamente. arrancada se não servir mais para enfeitar a paisagem (descartável)
aonde você iria se não estivesse preso por um bando de regras e convenções sociais? onde você fincaria raízes? você teria raízes?
eu queria me sentir como o vento em vez da planta (dono de si).
eu queria que o meu destino não fosse pré-determinado, simplesmente por eu ter nascido onde nasci.
você entende o que significa a liberdade? você entende que o livre arbítrio tem suas limitações? eu preciso trabalhar. eu preciso produzir. eu preciso contribuir para que a roda gire... e mesmo assim eu sou inútil. há pessoas que passam fome bem na minha frente e a quilômetros de mim. há pessoas que morrem de frio no inverno e que ficam encharcadas quando chove, tanto pela água da chuva quanto pelo abandono e pela aceitação de que alguns não devem ter nada para que outros tenham tudo.
se eu fosse livre, não aceitaria essas condições, sabe? mas é uma questão de sobrevivência. minha e dos meus.
eu me sinto culpada neste exato momento por me permitir pensar e observar o meu pequeno mundo lá fora em vez de produzir qualquer coisa que contribua para o meu futuro pré-determinado. eu tenho medo. tenho medo de envelhecer e morrer sem ter sentido nada extraordinário.
sem ter sentido o mais profundo e avassalador amor. tenho medo de me tornar apenas uma peça, cega e programada no jogo de gente que não tem noção da própria finitude.
eu tenho medo de ser engolida pelo sistema ou pela violência que o sistema alimenta quando admite a desigualdade. alguns saem de casa e não voltam mais. você agradece quando consegue voltar? você se sente abençoado? você se sente grato por ter o privilégio de não estar à margem e, assim como eu, ter alguma perspectiva que te faça ser aceito? isso nem é mérito nosso.
nascer não é mérito nosso!
eu tenho medo de naturalizar absurdos e terminar vazia, sem entender a linguagem dos poetas.
eu sempre quis ser mais do que eu era.
eu sempre quis transbordar amor embora tudo à minha volta pareça tão cruel e injusto.
eu sempre quis ser luz dentro da minha própria escuridão, expirar as minhas angústias e principalmente inspirar.
eu sempre quis sentir,
simplesmente sentir,
porque isso faz de mim gigante,
meio planta,
meio vento.
(ainda assim, estou tão perdida)
Evelyn Cardoso
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